Além das fronteiras coloniais

Sabemos que a atual configuração geográfica da África foi feita pelos colonizadores, ignorando completamente critérios étnicos, religiosos, culturais e sociais presentes no continente e que, historicamente, demarcavam diferenças.  No entanto, ainda que sejam visíveis as fronteiras impostas por colonizadores, são ainda mais fortes e expressivos os elos e raízes culturais e eles permanecem. Idiomas e dialeto étnicos explicitam esse aspecto. A primeira vez que notei isso foi quando estava em um vilarejo da Gambia que fazia fronteira com o Senegal. Fui recebido por uma senhora que era a chefe do local. Comigo falava em inglês, o idioma dos ex-colonizadores da Gambia. Seu esposo, contudo, comigo falava em francês, pois havia nascido no vilarejo vizinho que fazia parte do território senegalês, antiga colônia francesa.  Ela não falava em francês e ele não falava em inglês. Como então se entendiam? Apesar de terem nascidos em países diferentes, ambos pertenciam a mesma etnia, falavam, portanto, o mesmo dialeto. Tenho visto esse fenômeno em quase todos os países aqui da África. As línguas europeias são utilizadas apenas quando precisam se comunicar com um estrangeiro.

Polícia e corrupção

Ao comentar com uma amiga que eu havia sido rude com um policial que havia me interpelado na estrada, ela mostrou-se surpresa por não esperar tão reação de minha parte. A verdade é que, a partir de minha experiência como jovem pobre da periferia de uma grande cidade, não tenho uma boa imagem da polícia. Há, evidentemente, profissionais justos e honestos, no entanto, tenho dúvida se representam a maioria. E aqui na África os exemplos que tenho também não são bons.

Recordo que certa vez, eu deveria ter uns treze anos, meus colegas e eu estávamos coletando no comércio local doações para uma festa na escola. Quando percebemos que nosso ônibus se aproximava do ponto de parada, deixamos às pressas a loja em que estávamos e fomos para o ônibus. Apenas alguns minutos depois, uma viatura da polícia fez com que o veículo parasse bruscamente. Fomos violentamente tirados do ônibus e colocados no chão para uma revista com armas apontadas para nós. Devo Recordá-los de que éramos adolescentes de não mais de treze ou catorze anos. Fomos considerados suspeitos de roubo à loja por termos corrido para entrarmos no ônibus. Não havia nenhuma queixa de roubo, nenhuma acusação, mas jovens pobres não podem correr para pegar o ônibus como todo mundo. Não foram mais truculentos conosco porque a mãe de um dos nossos estava no ônibus e pode nos defender. Talvez alguns pensem que esse foi um episódio isolado, no entanto, infelizmente tantos outros se deram e ouso dizer que essa é, infelizmente, uma rotina na vida de jovens pobres, pior ainda se forem negros.

Aqui no continente africano, com exceção do Marrocos, em uma distância de 10 km, pode haver diversas barreiras de diferentes setores da polícia. Se o condutor escapar de uma, cai em outra. Na maioria das barreiras, o motorista, ao receber o sinal do policial para parar, apenas alcança ao oficial, sem discrição alguma, certa quantia de dinheiro e parte. Às vezes, uma das partes tenta negociar, o motorista pode alegar que pagou alguns metros antes para outro policial e às vezes o policial pode alegar que é muito pouco o que está recebendo. Como a corda estoura sempre no lado mais fraco, são quase em vão as tentativas do motorista para não pagar.

Na Guiné-Bissau, em alguns vilarejos, um imposto não oficial é cobrado por policiais aos vendedores ambulantes. Por que vocês não protestam contra a ação da polícia? Questionei certa vez um jovem que conversava comigo – e suas respostas, para minha surpresa, revelaram grande empatia para com os que o oprimiam. Eles recebem um salário muito pequeno, às vezes ficam meses sem receber. Se não cobrarem propinas, não podem sustentar suas famílias – afirmou o rapaz. A corrupção policial é tão grande e tão recorrente que parece ser vista como natural. Na Libéria, há, inclusive, próximo às barreiras, grandes painéis com desenhos ilustrativos indicando que é crime pedir ou oferecer propina, o que indica que as autoridades governamentais estão cientes dessa realidade. Certamente não será um outdoor que irá mudar ou impedir essa prática.

Até agora, não vi presença mais ostensiva da polícia do que na Costa do Marfim. Em outros países, sabia que, se eu não quisesse parar para dar explicações aos policiais de quem eu era e o que eu estava fazendo, bastava caminhar por estradas rurais. Na Costa do Marfim, ao longo de um trecho de 20 km em uma estrada de terra em zona rural, pode haver policiais em mais de três pontos diferentes. Nesses lugares, o alvo são os motoqueiros. Devo acrescentar que, em regiões de difícil acesso e estradas muito ruins, a motocicleta é o meio de transporte mais comum. Esses motoqueiros estariam cometendo alguma infração? Sim, várias. A maioria não tem habilitação. Penso que a maioria também não tenha documento do veículo, nesses lugares a compra e venda é feita de modo informal. Além disso, há tantas outras irregularidades, um espelho quebrado, um farol que não funciona, uma parte amarrada com arame e é comum ver quatro ou cinco passageiros, obviamente sem capacetes, em uma única moto. São por essas razões que são parados. Não estão transportando drogas, nem tramando nenhuma conspiração contra o governo. Trata-se de pessoas humildes, trabalhadores e trabalhadoras do campo que devem pagar diversas vezes ao dia para poderem se deslocar na região em que vivem.

Comigo, na maioria dos países, alguns policiais em uma primeira abordagem são pouco simpáticos, mas tornam-se gentis ao saber o que estou fazendo. A única vez que um policial tentou me pedir propina foi na Guiné. Eu caminhava por uma avenida movimentada, sem meu carrinho Santiago. Ao me avistar, o policial, sem nenhuma saudação, exigiu que eu apresentasse passaporte e visto. Na Guiné, o visto é eletrônico, mas o policial, despreparado para abordar turistas, não sabia disso. Expliquei que eu portava tudo o que era exigido de um turista e que, se ele tivesse alguma dúvida, poderia ligar para a polícia de migração. Ainda tentando impor certa autoridade muito seriamente, ele me disse: e tu não vais deixar nada para mim? Eu sorri e lhe disse: posso lhe dar um abraço, ou melhor, posso lhe dar 214 milhões de abraços da parte de cada um dos brasileiros e brasileiras. Ele pareceu não ter gostado de minha brincadeira e apenas fez sinal para que eu partisse. Eu sinto que estou capacitado para argumentar, mas e os que não estão, o que podem fazer? O que eu, como viajante, posso fazer para que essa realidade mude? Aparentemente, nada e isso gera em mim muita frustração e me deixa sempre na defensiva quando vejo um policial. Não tenho nenhum complexo de super-herói. E tampouco creio em ações individuais, mas eu realmente gostaria de poder fazer alguma coisa. Se tiveres alguma sugestão, comente abaixo, por favor. 

Uma hospedaria muito peculiar

É uma luzinha fraca, quase chata, intermitente e multicor. Na penumbra o prazer está mais à vontade. A música é forte. Nas mesas, cervejas e ao redor delas íntimos desconhecidos. Às vezes, como ontem à tarde, há discussões de ânimos exaltados. Ela exigia do rapaz que estava a sua frente, “eu quero meu dinheiro, tu não vais sair daqui enquanto não me pagar!” 

Quando eu era criança escutava minha mãe dizendo que a estratégia era embebedar o cliente para poder lucrar mais, ele gastava mais com bebida e ainda estava mais vulnerável para ser roubado. E naquela situação, obviamente, era ele que reclamava pelo dinheiro que de forma alguma seria devolvido, pelo fato que bêbado nunca tinha ou terá razão. 

Hoje pela manhã me acordei com vozes de crianças que ingenuamente brincavam pelo salão. Não tinha como não ser levado para os meus cinco ou seis anos. Por volta das nove horas, minha irmã Aline e eu éramos conduzidos ao trabalho da mãe. Os quartos eram colados um no outro e a cama dela era de tijolo. Muito similar ao lugar em que estou agora. No salão tomávamos café com as amigas da mãe que também estavam acordando. 

Ontem, logo que entrei aqui, notei que a placa de hotel era só mais um disfarce de nossas costumeiras hipocrisias sociais. Todos, menos os viajantes como eu, sabem que aqui não é um hotel. Ainda assim fiquei, pois, era a metade do preço de um hotel convencional. Na América latina também os motéis podem ser mais baratos. Apenas alguns minutos foram suficientes para que eu dissesse a mim mesmo, não gosto desse ambiente e acrescentei: por que estou sempre voltando a minha infância? Alguns meses antes de iniciar a viagem comentei com um frade que é psicólogo que quando éramos crianças, devido ao trabalho de minha mãe, estávamos constantemente mudando, sempre em cidades diferentes. E lembro que comentei com o frade que apesar de não gostar daquelas mudanças eu tinha a impressão que com a viagem estava escolhendo um estilo de vida que de certa forma faria com que eu reproduzisse o que vivi em minha infância.

Ontem, apenas alguns minutos após me sentir desconfortável com aquela atmosfera ao meu redor, percebi duas coisas importantes. A primeira foi que ao visitar aquelas memórias da infância, a rejeição a elas não vieram delas em si, mas da leitura que fiz ao longo dos anos dessas vivências. Quando era criança eu não achava ruim estar em um cabaré. Eu estava apenas visitando minha mãe em seu trabalho e amava quando os amigos dela me pagavam refrigerantes ou quando me davam fichas para tocar as músicas em uma máquina. Nós, minha irmã e eu saíamos na metade da tarde, que era quando começavam a chegar mais amigos de minha mãe. Era assim que eu via tudo isso. Foi somente como jovem e adulto, já “contaminado” por rótulos e preconceitos, que eu disse que não gostava daqueles lugares. Minha percepção e sensação de desgosto e desaprovação não provinha da experiência em si, mas de uma leitura preconceituosa posterior. Com isso aprendi que se pode ter diferentes leituras sobre um fato do passado e que interpretações compassivas e amorosas despertam em nós sentimentos de unidade e comunhão, enquanto as interpretações de discriminação são disjuntivas e geram uma falsa percepção de um eu bom e outro mau.

Vamos ao segundo insight. Ontem, uns trinta minutos depois de minha chegada, fui dormir. Quando acordei, a maioria dos que estavam no salão queriam tirar fotos comigo, pois haviam dito a eles que o brasileiro que estava fazendo uma volta ao mundo a pé e havia aparecido na TV estava hospedado ali. Um rapaz me chamou para tomar cerveja, eu recusei agradecendo, pois, já estava com mate feito no quarto. Ele então insistiu para que eu aceitasse cinco mil francos para pagar minha hospedagem. Aceitei, agradeci mais uma vez e pensei, mais uma das cenas de minha infância se repetindo: estou recebendo dinheiro de um dos amigos de minha mãe. Até aí nada de novo.

O segundo insight veio quando me aproximei de duas jovens que pareciam um pouco deslocadas. Primeiramente supus que assim estavam porque eram novatas, talvez fossem os primeiros dias na profissão. No entanto, ao me aproximar vi que as gurias não entendiam nada do que estava sendo falado no local. Eram nigerianas, não estavam familiarizadas com o idioma da Costa do Marfim. Presumo estarem na casa para atender os clientes ganenses, visto que estamos a poucos quilômetros da fronteira com a Gana, país anglófono.

 Já ouvi muitas vezes que com muito clientes as prostitutas atuam como psicólogas, escutam suas queixas e lhes animam em suas esperanças. Ontem, senti nitidamente que fui eu que desempenhei esse papel enquanto conversava com as nigerianas. E foi então que percebi que não é verdade que estou preso no loop de minha infância. O Marcelo que ontem falava com elas não é aquela criança do passado. Aquele que me deu cinco mil francos também não tem nenhuma relação com aqueles que me davam dinheiro para comprar refrigerante. Não creio em absoluto que haja uma missão misteriosa ou um significado místico que explique minha presença nesses lugares. E pouco me interessa se há ou não fatores inconscientes. O que me importa é o modo como respondo ou atuo nós lugares em que estou. O Marcelo de hoje escolheu responder com carinho, amor e empatia as circunstâncias que se lhe apresentam. Nem sempre consigo, mas ao menos esta é minha intenção. Quando percebi o bem que estava fazendo para aquelas meninas, também vi que outro amigo frade deveria reformular sua tese. Durante meu noviciado ela dizia: um capuchinho pode ter diferentes profissões, exceto porteiro de cabaré. Qualquer lugar é lugar para semear o bem. E como disse Jesus que as prostitutas entrarão no céu primeiro do que muitos que se julgam como muito religiosos, suponho que é melhor estar mais próximo delas do que destes.

O mundo além do meu olhar

Estou fazendo uma volta ao mundo a pé e  já percorri 17 países. Estou acostumado que me perguntem qual o país que mais gostei e qual país que não gostei. No entanto, creio que essas são perguntas que limitam nossa maneira de ver a vida. Se eu respondesse de acordo com essa linha de pensamento, seria possível supor que os países que gostei estão associados a experiências positivas que tive naquele lugar e que praticamente tudo o que vivi lá foi bom. Por outro lado, teria que dizer que os países que não gostei me proporcionaram experiências desagradáveis durante toda minha estadia. A vida não pode ser dividida simplesmente em bom ou mau e nada é tão constante assim. Essa classificação simplista e dualista ignora as nuances da vida e o quanto nossa percepção é contingente, ou seja, varia conforme as circunstâncias que estão em constante movimento. Além disso, o mundo não gira em torno do meu umbigo.  Embora minha opinião possa ser importante e mereça ser respeitada, ela é relativa, ao poder mudar completamente se for comparada com outra experiência. Um exemplo: após ter vivido por quase quatro anos na Europa, quando retornei a Porto Alegre me pareceu que as ruas de minha cidade natal eram muito sujas. Dois anos depois eu retornava à mesma cidade após ter vivido quase um ano no Haiti e recordo de ter dito: vejam, em Porto Alegre tudo é limpinho! 

Há ainda outro limitante nessas perguntas fechadas. Se a pessoa nos parece digna de credibilidade ou se temos um vínculo afetivo com quem as responde temos a tendência de cristalizar suas respostas. Se disser a vocês, por exemplo, que tive experiências negativas em um determinado país, vocês poderão facilmente concluir que aquele país é ruim e permanecer por um longo tempo com essa imagem do país. Assim, ignoramos que foi ruim apenas para mim, para tantos outros ou outras que passaram por aquele local a experiência foi certamente positiva. E foi ruim apenas nesse momento histórico. É provável que se retornar no mesmo lugar mesmo alguns meses depois minha percepção seja completamente distinta.

Creio que conhecer o contexto, especialmente, no que se refere a pontos de vistas negativos sobre pessoas, lugares ou situações nos ajuda a sermos mais empáticos e evitar julgamentos reducionistas. Permitam-me que eu lhes dê um exemplo. Enquanto percorria as estradas da Libéria comentei com alguém que eu não estava gostando daquele país porque por diversas vezes jovens tentaram tirar dinheiro de mim de maneira ilegal. Essa pessoa me explicou que esses jovens nasceram no período da guerra. Houve guerra civil na Libéria por mais de 20 anos. Durante a guerra, me explicava esse senhor, os valores são outros. Minha geração, disse ele, foi ensinada que não poderíamos pegar nada de ninguém. Essa geração, por sua vez, foi ensinada que deveria roubar para poder comer e sobreviver às barbáries da guerra, concluiu. Isso não significa, evidentemente, que eu aprove ou goste que me roube, mas me ajuda a compreendê-los e desejar que encontrem formas de superar essa formação que receberam e a ter outra visão sobre o país.

E mais uma vez, minha experiência não pode ser determinante para conceituar um país ou o que quer que seja como bom ou mau. Eu poderia, para exemplificar, dizer que o país que mais gostei aqui na África foi a Mauritânia porque as pessoas foram muito amáveis e acolhedoras para comigo. Isso poderia levá-los a concluir que a Mauritânia é um país excelente.  Um rapaz senegalês que foi imigrante na Mauritânia me disse que detestou o país porque em várias circunstâncias foi alvo de discriminação racial. Diante desses dois relatos, o que vocês concluem, a Mauritânia é um bom lugar ou não? Como se pode ver, é coerente que digamos que não é nem bom e nem ruim, mas que simplesmente depende das circunstâncias, de um conjunto de condições e de um mundo pleno de subjetividades concernentes ao observador. Por a vida ser complexa, diversa e sempre mutável não cabe nas caixinhas de meus gostos e desgostos pessoais. E tampouco pode ser presa em concepções e conceitos dualistas. 

Sim, eu posso dizer que gostei ou não gostei de um determinado país, mas devo estar consciente que isso não pode ser determinante para compreender esse local.

A cabra da independência

Estava em Dugal, um vilarejo de Guiné Bissal. Era a festa de 50 anos de independência do país, mas não havia comemorações porque não havia dinheiro, nem trabalho ou comida e nem sequer a ideia de que algum dia isso iria mudar. Levantavam para ficar na frente da casa tomando chá extremamente doce e saudar os que passavam pela estrada. Quando a noite chegava dormiam sabendo que no próximo dia tudo seria igual ao anterior. Para iludir-me pensando que por alguns dias vivi como eles viviam sentei-me à frente da casa e deixei que minha mente macaco me levasse para lugar algum. De repente, uma cabra rompeu o fio da monotonia de Dugal. Era puxada com força e empacava como burro, dando a entender que, como eu, não compreendia o porquê de toda aquela agitação. Mais assustado do que o animal estava o jovem que o havia roubado. Dele o medo saltava pelos olhos. Era trazido por um autoproclamado comitê de segurança que espontaneamente se havia formado no instante em que se percebeu que a cabra havia sido furtada. Pareciam caçadores que celebravam a captura da presa. Contaram-me com entusiasmo que houve perseguição, corrida, tentativa de fuga e resistência à prisão como em um filme de ação de Hollywood, mas que o acusado havia se entregado diante de um blefe de filme de comédia. Um dos membros da comissão de segurança simulou ter uma arma escondida no bolso, mas era uma espiga de milho que estava sendo comida no momento do anúncio do furto da cabra.Em meio a tantos gritos e manifestações exaltadas proferidas em balatanta, etnia predominante em Dugal, temi presenciar algum tipo de condenação feita pela massa de gente que se reunia em torno daquele rapazinho. Receberia chicotadas? Teria a mão decepada? Seria queimado vivo em fogueira de pneus? Eu não sabia se poderia intervir, mas ainda assim tentei. Às vezes, perguntas tolas são como música desligada abruptamente em um baile, inevitavelmente, forçam uma parada coletiva. E, talvez, inconscientemente, foi isso que pretendi ao perguntar por que não chamavam a polícia. Não, o grupo não parou e riu de mim como em uma cena de desenhos animados. Apenas Alsau, meu anfitrião, que também fazia parte da comissão e teve seu braço mordido pelo ladrão respondeu pacientemente que a polícia não se deslocaria por um caso tão simples. A patrulha que diariamente ficava a uns duzentos metros daquele local pertencia ao departamento rodoviário e, portanto, não podia interferir. Tinha como única função parar os carros velhos naquela estrada de chão esburacada e verificar se os impostos haviam sido pagos e pegar propinas para alimentar a família. Os sábios e anciãos do vilarejo foram chamados. Os que portavam o gorro vermelho podiam opinar e sugerir, os demais deveriam apenas ouvir. Parecia uma cena bíblica do tempo dos juízes. Foi formado o comitê de justiça. Vítima e acusado foram postos frente a frente. O pai do suposto ladrão estava lá para acatar as decisões do comitê e garantir que o filho cumpriria a pena. Já havia escurecido. Depois de horas de discussão onde todos discutiam com todos e com ninguém a sentença foi proclamada. A cabra, obviamente, voltou para o seu dono que até o fim do ano deverá receber da família do ladrão outra cabra para compensar o stress vivido em plena festa da independência. Um porco servirá como honorário para a comissão de segurança festejar o êxito de sua missão. E eu testemunho e vivo essa história para partilhar com vocês. Do jeito balanta a justiça foi feita. Não sei se a cabra está feliz mas, seguramente, não está independente, pois, como diz meu amigo Serginho, em terra que sofre gente, bicho sofre muito mais. E onde há sofrimento não há independência.

Por qué soy el único latino en la foto ?

Podría publicar esta foto aquí con el siguiente título: conociendo a otros viajeros en las montañas de Marruecos. Pero mi sentido crítico no me lo permite, es necesario hacer algunas observaciones: en la foto hay dos parejas de franceses, dos chicas de Canadá y un latinoamericano. ¿Eso te dice algo? Ya puedo adelantar que, como latino, soy prácticamente una excepción entre otros viajeros. Podría publicar otras fotos mías con viajeros que encontré en el camino y se repetiría el escenario, es decir, casi todos europeos o del norte del continente americano. En casi dos años de caminata encontré muy pocos latinos viajando, incluso cuando estaba en América Latina, ni negros ni personas trans u otros grupos históricamente puestos en condiciones minoritarias. Sé que ya hice esta reflexión aquí, pero esto es algo que me sigue preocupando. Algunas conclusiones: 1) Este es un espacio al que solo tiene acceso un determinado grupo y hay que decir que es el grupo el que tiene acceso a todos los demás derechos básicos. Por lo tanto, viajar sigue siendo el privilegio de un solo grupo y no un derecho. ¿Y por qué debería ser un derecho? Mi argumento podría enumerar los beneficios culturales, emocionales y sociales que proporciona viajar. Sin embargo, creo que no es necesario seguir este camino, ya que la propia ONU, en la Declaración Universal de los Derechos Humanos, firmada en 1948, ya sitúa el derecho de ir y venir como un derecho que debe ser garantizado a todas las personas. Pero en la práctica, sabemos que no es más que un ideal. Cuando un europeo, un australiano o un estadounidense viene a un país pobre, no se le pide que muestre cuánto dinero tiene en la billetera, ni se le pregunta por su profesión o si tiene billete de vuelta a su país. Su pasaporte es automáticamente un certificado de su idoneidad y una garantía de que escucharás de parte del agente de inmigración, acompañada de una amplia sonrisa, la frase: “sea bienvenido a nuestro país”. Esto me hace pensar que el derecho universal de ir y venir no es tan universal. Y aún, sólo los blancos ricos se encajan en la categoría humana; 2) viajar, para quien histórica y socialmente sufrió un proceso de marginación, es prácticamente un acto de transgresión y resistencia. Cuando viajo digo que no estoy de acuerdo con que mi vida tenga que estar marcada todo el tiempo por un trabajo (mal) pagado. Soy consciente de que aparecer en esta foto significa superar una barrera impuesta por el sistema político y económico actual. Al estar ahí estoy diciendo que ese espacio también debe ser ocupado por latinos y latinas, hombres y mujeres negros, personas empobrecidas y/o personas discriminadas por su nacionalidad. Pero eso no es suficiente, ya que ninguna acción aislada resulta en transformaciones sociales . Es necesario que nos organicemos colectivamente para tener acceso al pan y al arte, a la salud y a los sueños, a la educación y también a los viajes. Se podría argumentar que tenemos tantas otras preocupaciones y demandas, que son mucho más urgentes, ¿por qué hablar de viajes? Creo que no estoy hablando estrictamente de viajes, sino de las marcas de la desigualdad social en nuestras vidas y los espacios y realidades en los que no se nos permite estar como resultado de esta desigualdad.

Pourquoi suis-je le seul latino sur cette photo ?

Je pourrais poster cette photo ici avec la légende suivante : une belle rencontre avec d’autres voyageurs dans les montagnes du Maroc. Mais mon sens critique ne me le permet pas, il faut faire quelques considérations : sur la photo se trouvent deux couples de français, deux filles du Canada et un latino-américain. Cela vous dit quelque chose ? Je peux déjà anticiper qu’en tant que latino, je suis pratiquement une exception parmi les autres voyageurs. Je pourrais poster d’autres photos de moi avec des voyageurs rencontrés en chemin et le scénario se répéterait, c’est-à-dire presque tous européens ou du nord du continent américain. En près de deux ans de marche, j’ai trouvé très peu de Latinos voyageant, même lorsque j’étais en Amérique latine, et pas de noirs et pas de personnes trans ou d’autres groupes historiquement mis dans conditions minoritaires. Je sais que j’ai déjà fait cette réflexion ici, mais c’est quelque chose qui ne cesse de m’inquiéter. Voici quelques conclusions :1) Le voyage c’est un espace auquel seul un certain groupe a accès et il faut dire que c’est le groupe qui a accès à tous les autres droits fondamentaux. Par conséquent, voyager reste le privilège d’un seul groupe et non un droit. Et pourquoi devrait-il être un droit? Mon argument pourrait énumérer les avantages culturels, émotionnels et sociaux que procurent les voyages. Cependant, je crois qu’il n’est pas nécessaire de suivre cette voie, puisque l’ONU elle-même, dans la Déclaration universelle des droits humains, signée en 1948, place déjà le droit d’aller et venir comme un droit qui doit être garanti à tous. Mais en pratique, nous savons qu’il ne s’agit que d’un idéal. Lorsqu’un européen, un australien ou quelqu’un qui vient des États-Unis arrive dans un pays pauvre, on ne lui demande pas de montrer combien d’argent il a dans son portefeuille, on ne lui demande pas non plus sa profession ou s’il a un billet de retour à son pays. Son passeport est automatiquement un certificat de son honnêteté et une garantie qu’il va entendre de la part de l’agent d’immigration, accompagnée d’un large sourire, la phrase : « soyez le bienvenu dans notre pays ».Cela me fait penser que le droit universel d’aller et venir n’est pas si universel. De plus, seuls les blancs riches rentrent dans la catégorie humaine ; 2) Ainsi, voyager, pour quelqu’un qui a subi historiquement et socialement un processus de marginalisation, est pratiquement un acte de transgression et de résistance. Par le fait de voyager, je dis que je ne suis pas d’accord que ma vie doive être marquée en permanence par un travail (mal) rémunéré. Je suis conscient qu’apparaître sur cette photo signifie surmonter une barrière imposée par le système politique et économique actuel. En y étant , je dis que cet espace doit aussi être occupé par des gens de l’Amérique latine, des hommes et des femmes noirs, des personnes démunies et/ou des personnes discriminées en raison de leur nationalité. Mais cela ne suffit pas, car aucune action isolée ne débouche sur des transformations sociales. Il faut que nous nous organisions collectivement pour avoir accès au pain et à l’art, à la santé et au rêve, à l’éducation et aussi aux voyages. On pourrait dire que nous avons tellement d’autres préoccupations et demandes, qui sont tellement plus urgentes, pourquoi parler de voyage ? Je pense que je ne parle pas strictement de voyages, mais des marques de l’inégalité sociale dans nos vies et des espaces et réalités dans lesquels nous ne sommes pas autorisés à être en raison de cette inégalité.

Por que sou o único latino na foto?

Eu poderia postar essa foto aqui com a seguinte legenda: encontro com outros viajantes nas montanhas do Marrocos. Mas meu senso crítico não me permite, é preciso antes fazer algumas considerações: na foto estão dois casais franceses, duas meninas do Canadá e um latino americano. Isso diz alguma coisa para vocês? Já posso antecipar, que como latino, sou praticamente uma exceção entre outros viajantes. Eu poderia postar outras fotos minhas com viajantes que encontrei no caminho e o cenário iria se repetir, ou seja, quase todos europeus ou do norte do continente americano. Em quase dois anos de caminhada encontrei pouquíssimos latinos viajando, inclusive quando estava na América Latina, e nenhuma pessoa negra e nenhuma pessoa trans ou de outros grupos historicamente minorizados. Eu sei que já fiz essa reflexão por aqui, mas isso é algo que continua me inquietando. Algumas conclusões: 1) Esse é um espaço que somente um determinado grupo tem acesso e deve-se dizer que é o grupo que tem acesso a todos os outros direitos básicos. Portanto, viagens continuam sendo privilégios de apenas um grupo e não um direito. E por que deveria ser um direito? Minha argumentação poderia elencar os benefícios culturais, emocionais e sociais que viagens proporcionam. No entanto, creio não ser necessário seguir por esse caminho, pois a a própria ONU, na declaração universal dos direitos humanos, assinada em 1948, já coloca o direito de ir e vir como um direito que deve ser garantido a todas as pessoas. Mas, na prática, sabemos que não passa de um ideal. Quando um europeu, um australiano ou um estadunidense vêm para algum país pobre não lhe pedem para que mostre quanto de dinheiro tem na carteira, nem lhe é perguntado sobre sua profissão ou se tem uma passagem de retorno ao seu país. Seu passaporte é automaticamente um atestado de sua idoneidade e garantia de que escutará do agente de imigração, acompanhado de um largo sorriso, a frase: “seja bem- vindo ao nosso país”. Isso me faz pensar que direito universal de ir e vir não é tão universal. E mais, somente brancos ricos se encaixam na categoria humanos; 2) viajar, para alguém que historicamente e socialmente sofreu um processo de marginalização, é praticamente um ato de transgressão e resistência. Ao viajar, estou dizendo que não concordo que minha vida tenha que ser marcada o tempo todo por um trabalho (mal) remunerado. Eu estou consciente de que aparecer nessa foto significa ultrapassar uma barreira imposta pelo sistema político e econômico vigente. Ao estar alí, estou dizendo que esse espaço também deve ser ocupado por latinos e latinas, negros e negras, pessoas empobrecidas e ou discriminadas por sua nacionalidade, mas isso não basta, pois nenhuma ação isolada resulta em transformação social. É preciso que coletivamente nos organizemos para termos acesso a pão e arte, saúde e sonhos, educação e também à viagens. Alguém poderia argumentar que temos tantas outras preocupações e demandas, que são tão mais urgentes, por que falar em viagem? Penso que não estou falando estritamente sobre viagem, mas sobre as marcas da desigualdade social em nossas vidas e os espaços e realidades que não nos é concedido estar como consequência dessa desigualdade.

TODA DECISÃO IMPLICA UMA CISÃO

Queridas amigas e queridos amigos!

Vocês devem ter acompanhado por aqui que retomei o “ Caminho de Aline”, ou seja, segue o projeto de fazer uma volta ao mundo a pé por aproximadamente mais 8 anos. De coração aberto, quero partilhar com vocês algumas consequências dessa decisão.  Para tanto, terei que voltar um pouco no tempo e, como a história não é curta, convido vocês a pegarem um chimarrão ou um chazinho e me acompanharem nessa travessia.

Em 1994, com dezesseis anos de idade, eu estava sozinho sem água, luz e comida. Foi então que a dona Eva, uma vizinha, que de vez em quando, partilhava comigo um pouco de alimento, sugeriu que eu fosse padre, pois assim, segundo ela, eu teria comida, estudo e casa.  Alguns meses depois, de uma freira idosa recebi o livro “o Francisco que está em você” do frei capuchinho, Wilson João Sperandio. Ao ler aquelas páginas, senti que aquele era um homem livre e que, eu, apesar de viver em completa miséria, sentia-me preso a tantas coisas, mas  desejei ser livre como Francisco.

Já faz vinte e seis anos que  passei a conviver com os freis capuchinhos e, praticamente, tudo no que acredito , o modo como me relaciono com as pessoas,  os valores que defendo e as escolhas que faço são resultados dessa vivência.  Para mim, ser frade, basicamente se resume em ver os demais seres como meus irmãos. Por isso, ofereço-me às pessoas que encontro em meu caminho como um verdadeiro irmão. E posso dizer a vocês, de todo o meu coração, que gosto de viver assim.

O desejo de caminhar pelo mundo, direta ou indiretamente têm duas fontes: minha história familiar, pois durante minha infância mudávamos constantemente com a esperança de que a vida seria melhor e, a formação que recebi ao longo de todo esse tempo, também foi um estímulo para tal. Na vida religiosa me foi falado que Francisco de Assis, por amor a Jesus, que era pobre e itinerante, queria que os frades vivessem como peregrinos e forasteiros. E foi no noviciado, que nosso mestre nos incentivou a fazer a primeira experiência radical de itinerância. Caminhamos, um confrade e eu por vários dias, levando apenas a roupa do corpo, o breviário e um evangelho. Naquela ocasião, sujos e cansados, depois de caminharmos por um tempo significativo, fomos à missa e em seguida, fomos à casa paroquial solicitar um lugar para dormir. Uma senhora que havia nos visto na missa, perguntou: vocês são franciscanos? Como ela poderia ter descoberto isso, se não estávamos usando hábito e nenhum outro sinal religioso? Sua resposta foi direta e nos encheu de alegria: “vocês estavam rezando e são pobres e alegres”.

Ao longo de minha formação, várias oportunidades me foram proporcionadas para viver a itinerância, mas por mais despojamentos que essas experiências provocassem, eu sentia ainda  exercer minha missão em um lugar privilegiado, como alguém que tinha algo de material ou intelectual para dar. E por mais que eu procurasse estabelecer uma relação igualitária com as pessoas, a própria imagem de frei presente no imaginário delas, de ser uma pessoa especial ou uma figura de respeito, as tornava distantes de mim de certa forma.                                         

 Ao caminhar pela América Latina, senti que eu exercia a dimensão fraterna e minha própria vocação de um outro lugar. Ao precisar de um lugar para dormir ou um prato de comida ou ainda, em um simples encontro com alguém na rua, eu oferecia uma palavra de esperança e ânimo, um sorriso e assim me sentia frei, irmão de todos. 

Por tudo isso, eu não vejo essa longa caminhada que empreendi, como uma cisão com o projeto que iniciei a 26 anos, muito pelo contrário, entendo como uma radicalização e continuidade, mesmo que não possa ter respaldo institucional. Alguns irmãos deixam a ordem porque querem constituir família, ter bens ou porque não conseguem viver em fraternidade. Eu amo estar com os frades e com o povo. E realmente gostaria de caminhar com outros irmãos, mas não é porque eu gosto de viver dessa forma que deveria exigir o mesmo a quem quer que seja. E tampouco penso que os demais são menos frades por não viverem a itinerância do modo que a vivo. 

Eu vejo essa longa peregrinação por diversos países, como mais uma etapa de formação para que eu seja um melhor irmão, uma pessoa melhor, mais amorosa, mais compassiva, mais desapegada, livre de todo egocentrismo, capacitando-me para mais compreender que ser compreendido e amar do que ser amado e em todas as circunstâncias, ser um instrumento de paz tal como rezei por todos esses anos.

Estou deixando a Ordem em termos institucionais, pois a estrutura não prevê e, atualmente, não comporta um estilo de vida como o que eu estou vivendo. Eu compreendo essas consequências e as aceito com serenidade. Ser frade não é uma função ou tampouco um título, mas um jeito de ser e viver. E tendo presente que ser irmão está tão encarnado em meu modo de ser e é resultado de toda a formação que recebi em mais de duas décadas e meia com os freis, não creio que deixo de ser um irmão, ao solicitar desligamento da ordem. Deixo de ser chamado de frei, deixo de usar o hábito, mas não deixo de ver cada um como irmão e irmã e de me oferecer como irmão. Devo admitir que deixar esses elementos simbólicos causam em mim certa dor pelo apreço e amor que tenho a eles e, talvez, pelo apego que desenvolvi à imagem de ser frei, no entanto, encaro esse momento, como mais um gesto de despojamento inerente à vocação franciscana.

Meu vínculo afetivo com os frades permanece. Pois não é um documento ou uma instituição que nos torna irmãos, mas os laços de afeto, diálogo e compreensão mútua ,enfim,tudo o que  fomos desenvolvendo ao longo desses anos.

De acordo com o projeto inicial, estão previstos aproximadamente mais oito anos de caminhada. Depois disso, seria meu desejo retornar à província, caso me fosse permitido?De acordo com o modo que sinto e penso hoje, diria que sim. Contudo, para ser honesto, não sei como estarei vendo a vida depois dessa experiência. Posso responder por hoje, mas não pela pessoa que ainda não sou. 

Meu profundo e sincero agradecimento por todo carinho, compreensão, atenção, oportunidades e aprendizados que recebi e recebo continuamente dos frades, dos amigos e amigas de todas as comunidades por onde passei. Eu, definitivamente, não seria quem sou se não tivesse recebido o amor, formação e valores que os frades  e o povo me transmitiram ao longo desses 26 anos. Também apresento o meu sincero pedido de perdão a quem eu possa ter magoado, nas fraternidades, pastorais e comunidades.  Muito obrigado pelo carinho dos frades, da família e do povo querido de nossas comunidades. Um bom caminho para todas e todos.

NÃO HÁ MOTIVOS PRA VIAJAR

Em 2018 deixei Porto Alegre, minha cidade natal, com um sonho: fazer uma volta ao mundo a pé por aproximadamente dez anos. Desde então já caminhei quase dez mil km por sete países. Eu gostaria de ouvir tantas perguntas interessantes e instigantes sobre essa viagem, mas sabem qual é a pergunta que mais ouço?

Porque eu viajo pelo mundo? Sim, é natural que façam essa pergunta, mas admito que me sinto incomodado com tal questionamento pois parece condicionar minha viagem a um porquê ou a uma causa lógica e racional. Eu não pergunto porque uma mãe ama seu filho, ela simplesmente o ama, não é mesmo? Há coisas que não necessitam de um motivo e talvez viajar seja uma delas. O pequeno príncipe diria que essa é uma típica pergunta de adultos e ficariam muito satisfeitos se minha resposta contivesse números e fórmulas.
Em 2013 quando eu fazia o caminho de Santiago de Compostela essa era uma pergunta recorrente e as pessoas ficavam frustradas ou decepcionadas quando eu dizia que não tinha nenhuma causa em especial. Eu não estava procurando respostas para a vida. Eu não queria superar uma perda ou me curar de um trauma. E agora tampouco. Eu viajo a pé simplesmente porque senti vontade de fazer isso.
Fui chamado de Forrest Gump da América Latina por alguns jornalistas dos países que passei. Eu gosto e me identifico com esse título. No filme, as pessoas esperavam que o personagem, quando perguntado pelo motivo de sua corrida, oferecesse uma resposta filosófica, que servisse de inspiração para outras pessoas. Forrest corre, simplesmente, porque sentiu vontade de correr. Em outras palavras, ele não se pergunta pelo sentido da vida, ele simplesmente a vive. Da mesma forma, as pessoas esperam que essa caminhada tenha um motivo que se encaixe nos parâmetros que, socialmente e culturalmente, aceitamos como válidos para se construir uma vida. Eu caminho pelo simples fato de que tive oportunidades que me permitiram ver que é possível viajar caminhando.

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